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MARÇO AMARELO
Endometriose: o desafio de viver com a doença e a busca por qualidade de vida

Como forma de conscientizar sobre a endometriose, foi criada a campanha do Março Amarelo, um momento oportuno para falar sobre os sintomas, a importância de um diagnóstico correto, tratamentos e os impactos na qualidade de vida. A Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) conta com serviços e especialistas preparados para dar suporte a essas mulheres pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
A artesã Rithianna Pereira, de 40 anos, moradora de Cataguases, Minas Gerais, está entre as mais de 7 milhões de mulheres que enfrentam a endometriose no Brasil, de acordo com estimativas do Ministério da Saúde. Aos 17 anos, ela já apresentava alguns sinais da doença, mas os exames não a detectaram na época. “Eu sentia dores absurdas, de desmaiar, de não conseguir andar. O tempo foi passando, eu tomava anticoncepcional, e, quando parei, engravidei da minha primeira filha, que hoje tem 18 anos. Por conta disso, achava que não era endometriose. Mas era pura desinformação”, afirmou Rithianna.
Durante um exame preventivo, há três anos e meio, veio o diagnóstico. A doença já atingia diversos órgãos, chegando a comprometer parte do intestino, entre outras complicações. “Ainda carregava o sonho de ter mais um filho, por isso não queria optar pela cirurgia para remover tudo. Eu sentia no meu coração que não queria tirar o útero, mesmo com todos os sintomas. Foi aí que busquei o máximo de informações e o Sistema Único de Saúde (SUS) para conseguir opções de tratamentos menos invasivos”, comentou a artesã.
Dor causada pela doença interfere na qualidade de vida
O chefe do Serviço de Ginecologia do Hospital das Clínicas da UFPE, Claúdio Leal, explica que a endometriose é uma doença ginecológica definida pela presença de tecido endometrial fora do útero, sendo mais frequente em mulheres em idade reprodutiva, com média de idade de 36 anos. “Os sintomas mais comuns incluem cólica menstrual intensa, dor durante as relações sexuais ou dor pélvica crônica”. O especialista alerta, inclusive, para a possibilidade de existirem pacientes que não apresentam sintomas.
Mariana Kefalas, ginecologista no Hospital Universitário do Triângulo Mineiro (HC-UFTM), acrescentou que, por ser uma doença muito prevalente nas mulheres, a endometriose precisa de maior atenção da saúde pública. “Tendo em vista que compromete mulheres em idade de muita produtividade, a dor interfere diretamente na qualidade de vida. Todas as vezes que a mulher menstrua, vai menstruar nos pontos fora do útero, onde tem a presença do endométrio, causando a inflamação e esta última, muitas vezes está relacionada com a dor e a infertilidade", afirmou.
A ginecologista e responsável pelo Ambulatório de Endometriose do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (HU-UFJF), Luzia Nasser, acrescentou que não existe uma causa definida e que o grande desafio no tratamento é a necessidade de uma equipe multiprofissional. “Como a endometriose é uma doença que envolve muitos órgãos e sistemas, precisamos de uma equipe completa para conduzir esses pacientes, tanto na parte clínica quanto na parte cirúrgica. Por ser uma doença inflamatória, é fundamental uma mudança no estilo de vida, mesmo com a indicação ou não de cirurgia. É necessária uma condução clínica constante durante toda a vida reprodutiva”, disse.
É no Ambulatório do HU-UFJF que Rithianna faz seu acompanhamento desde setembro de 2023. Lá, são atendidas, em média, 300 pacientes por ano, sendo referência para esse tipo de assistência pelo SUS em Juiz de Fora. “Nós contamos com um serviço estruturado entre os atendimentos no Ambulatório de Endometriose e no de Multi-especialidades, que é integrado com especialistas em Fisioterapia Pélvica, Nutrição e Psicologia. Além disso, há o Ambulatório da Dor, com anestesiologia, e a possibilidade de acompanhamento com a Proctologia e a Urologia, já que a endometriose acomete vários órgãos e sistemas”, frisou Luzia.
Adotar hábitos anti-inflamatórios auxilia no tratamento
O ginecologista Alisson Chianca, que atua no Hospital Universitário da UFMA (HU-UFMA), acrescentou que a endometriose precisa de um tratamento individualizado e multifatorial. “Na abordagem multidisciplinar, é possível fazer o bloqueio hormonal, um tratamento clínico para pacientes que não têm desejo de engravidar e que não apresentam uma doença tão extensa ou visível em exames de imagem, por exemplo. Mas, quando a paciente deseja engravidar ou quando a doença já está muito avançada, é indicada a cirurgia para desfazer as aderências e retirar as lesões de endometriose”, explicou.
Alisson pontuou que, além do diagnóstico e acompanhamento com equipe especializada, é fundamental que a paciente adote hábitos anti-inflamatórios. “Dessa forma, uma alimentação equilibrada e a prática de atividade física regular ajudam a desinflamar o corpo e, consequentemente, melhoram muito a vida das pacientes”, destacou.
Após mudanças nos seus hábitos alimentares e físicos, e com o devido acompanhamento psicológico, Rithianna pôde ver melhoras significativas em seu corpo. Entretanto, a endometriose não tem cura. “No HU-UFJF, participo de reuniões com profissionais e pacientes, que são fundamentais para ajudar as mulheres nesse processo de autoconhecimento”, afirmou a artesã.
O ginecologista Claúdio Leal (HC-UFPE) ressaltou o diagnóstico precoce para iniciar o tratamento, evitando a propagação da doença para outros órgãos. Segundo ele, o diagnóstico pode ser feito por meio de anamnese, exame clínico, ultrassom e laparoscopia, sendo este último o principal.
A dor que se transformou em amor
Com o avanço do comprometimento do intestino, chegando a 50%, Rithianna se viu mais uma vez em uma situação delicada. De um lado, não queria tirar o útero, mas, por outro, precisava cuidar de sua saúde. Ela seria a primeira da fila de espera para a cirurgia quando, em 23 de dezembro, descobriu que estava grávida. “Deus estava me preparando para o meu milagre”, disse, emocionada. Ela está com 15 semanas e segue bem e agradecida por todo o acompanhamento recebido. Em seu coração, também tem o desejo de que mais mulheres tenham acesso à informação e possam buscar um cuidado qualificado.
Hospitais da Ebserh contam com serviços especializados
O HU-UFJF, possui um serviço de ginecologia endoscópica, no qual já realiza procedimentos para os casos mais leves, e está se estruturando para iniciar os procedimentos de endometriose infiltrativa, ainda em 2025. No HC-UFPE, o ambulatório especializado atende uma média de 40 pacientes por mês.
O HU-UFMA realiza, em média, 30 atendimentos semanais e de 8 a 10 cirurgias por videolaparoscopia mensalmente. Além disso, as pacientes contam com exames de imagem, ultrassom com preparo intestinal e protocolos para mapeamento da endometriose, além de acompanhamento psicológico e nutricional. No HC-UFTM, o Ambulatório de Dor Pélvica e Endometriose realiza cerca de cinco atendimentos por semana.
“O Março Amarelo é um mês consagrado para a divulgação da doença, o que ajuda muito no entendimento para que a paciente possa identificar se tem a condição e conscientizar os familiares e as pessoas ao redor para que haja um acolhimento melhor desse problema, que impacta tanto na vida da mulher”, finalizou Alisson.
Sobre a Ebserh
Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Redação: Danielle Morais, com revisão de Danielle Campos
Coordenadoria de Comunicação Social/Ebserh