Configurações avançadas de cookies
Para melhorar a sua experiência na plataforma e prover serviços personalizados, utilizamos cookies.
“Eles tinham uma posição do mel... de ajunta ao mel as flor, as árvore, a flor do umbu, a flor do caju, o cajueiro... muitas e muitas árvores então... o que ele fazia pegava a flor de muitas árvore... colocava num vasilhame feito de, hoje na língua portuguesa a gente conhece como um cocho... esses tipo de coisa, um vasilhame ali eles ajuntava diversas flor e colocava naquele vasilhame ai colocava o mel e deixava curti ali muito tempo depois que aquela flor curtia com aquele mel ali ele servia com alimento”
Pajé Antonio
Nós, os Kalankó somamos cerca de 480 pessoas, no alto sertão alagoano, no município de Água Branca. Nosso povo teve início na dissolução do antigo aldeamento de Brejo dos Padres, PE, território atual dos parentes indígenas Pankararu.
As primeiras famílias dos Kalankó migraram de lá há cerca de 150 anos, para a região onde vivemos. Ainda hoje não possuímos uma terra indígena demarcada. Lutamos muito para sobreviver com nossa cultura viva!
Vivemos em área agredida pelo sistema capitalista do bioma Caatinga. Observamos, ano a ano, a degradação de nosso território, o que dificulta nossa vida na região, pois, além de dependermos dos remédios do mato, da água, somos agricultores familiares.
Nosso toré, nossa cultura viva, mostra outro modo de cuidar da Caatinga, um jeito sustentável.
O toré nos dá a energia encantada e fala da relação das espécies na natureza. Tudo, pássaros, flores, frutos, pessoas e energia aparecem associados em nossa música encantada.
Pedagogia do Toré
Paulo Kalankó
Esse material didático apoiado pela Revista Pihhy é para nossa primeira escola Kalankó, é inédito.
Será mais do que um livro: será um instrumento de descolonização, promovendo a epistemologia Kalankó com o mesmo valor e reconhecimento dado às formas de conhecimento eurocêntricas.
Nele, a cultura Kalankó será apresentada a partir de sua própria perspectiva, destacando a importância da terra, dos ciclos naturais e dos rituais como o toré, o Praiá e o Serviço de Chão, onde os encantados – seres espirituais representados por pássaros da caatinga – guiam e protegem a comunidade.
A tradição musical, fundamental para a identidade Kalankó, também terá um espaço central no livro.
Torés como "Caboclo de pena, não pisa no chão. Peneira no ar que nem gavião” são expressões da conexão entre o povo e a natureza, transmitindo conhecimentos sobre o território, os recursos naturais e os encantados.
No toré, o canto e a dança não são apenas celebrações; são formas de ensino e resistência, onde os pássaros e as flores simbolizam a continuidade da vida e a força espiritual do povo.
A escassez de recursos naturais, agravada pela degradação ambiental, impacta diretamente o modo de vida Kalankó.
Como relata Dona Jardilina, "a gente planta melancia, mas quando vem o verão, seca tudo”. Tonho Preto complementa: "o algodão está extinto.
Não chove mais no verão”. Essas falas evidenciam a luta diária pela terra e pela preservação da biodiversidade, aspectos que estarão presentes no livro didático para que os jovens Kalankó compreendam e valorizem a importância do território na manutenção de sua identidade.
Ao apoiar a produção desse livro pioneiro, a Revista Pihhy reafirma seu compromisso com a educação escolar indígena, fortalecendo a cultura Kalankó e garantindo que sua história e seus conhecimentos sejam transmitidos de geração em geração. Trata-se de um passo essencial para a resistência e a continuidade desse povo, que, apesar dos desafios, segue afirmando sua identidade:
T1
Urubu de Serra Negra
de velho caiu as penas
de come mangaba verde
na baixa da jurema.
Ole le coã
na baixa de jurema
olele coã
na baixa da jurema
ole le coã
T2
Papagaio verde-amarelo
foi come mangaba veia
batam palmas, digam vivas
os caboclo tá na terra
eu agora me lembrei
foi come
papagaio amarelo
foi come mangaba veia
T3
Eu subi lá no alto do tempo
só pra vê a fundura do mar
canta home canta mulé
e a sereia canta no mar
canta home canta mulé
e a sereia canta no mar
T4
No céu, na lua cheia
na terra nasce uma flor
(Cantador)
no espaço, quero andorinha
Para ser meu protetor
(Participantes)
lê o há hei lê o há há
lê o hei lê o há há
(Complemento)
T5 - Versão 1
Urubu de serra negra caiu as pena,
de come mangaba verde (cantador)
lá na baixa da jurema
ole olé côa (participantes)
lá na baixa da jurema
ole olé côa (participantes)
Que pode ser cantado como:
T6 - Versão 2
Olé olé côa
gavião fez o ninho,
lá na baixa da jurema,
olé olé côa.
Ou, numa versão 3 – T7
Em cima daquela serra,
tem um terreiro de preá (cantador);
Canta homem, canta mulher,
e os índios que chegam lá (participantes).
lá na baixa da jurema,
olé olé côa.
T8
O caminho dessa aldeia
o caminho dessa aldeia
eu mandei foi ladrilhar
com ouro e prata fina
para os índio pode anda
ha o ha ha
he o he a ha
T9
Abre-te porta janela,
Que é por ela que eu quero entrar
Eu quero é visita
A mesa do ajucá
T10
Minha aldeia tem caboclo
e ele vem para trabalhar
vocês disse que são caboclo
e agora que eu quero ver
T11
Pisa ligeiro
pisa ligeiro
quem não pode com a formiga
não agarra o formigueiro
T12
O caboclo tá no mato
tá apanhando murici
bota a corda no caboclo
na aldeia do ouricori
T13
Abeia em tempo de chuva
só trabalha no agreste
Trabalha abeia miúda
na aldeia do agreste
T14
Caboclo de pena
penero penero penero
Caboco de pena não pisa no chão
peneira no ar
que nem gavião
caboco de pena não pisa no chão
penera no ar que nem gavião
T15
Somos índios brasileiros
da bandeira nacional(cantador)
viemos por nossos direitos
no governo federal(participantes)
T16
Vamô minha gente,
uma noite não é nada
(2 X)
ô, quem chego foi Kalankó
(Cantador)
No romper da madrugada (participantes)
Vamo vê se nóis acaba(Cantador)
O resto da empeleitada (participantes)
Lê lê lê eio há há
Há há he Eio a há há
(Complemento)
T17
Eu vou ver mamãe daruanda
eu vou ver mamãe daruanda
eu vou ver mamãe daruanda
…
Eu vou ver ohh
mamãe daruanda
T18
Caboclo da mata
que é que tá fazendo ai
eu estou cortando pau e eu estou tirando mel
corto pau e tiro mel
o caboco canindé
corto pau e tiro mel
o caboco canindé